Entre o prazer e o desprezo pela leitura

por Jefferson Ramalho

Não escrevo textão para quem só consegue ler textinho. Portanto, não perca tempo com o que parece pesado demais para você, só de olhar o tamanho. Continue vendo, curtindo e, às vezes, compartilhando os memes. Este texto é grande e, decerto por isso, não foi escrito para você.

Agora sim, falando diretamente com aqueles e aquelas que gostam de ler, gostaria de tratar e convidar-te a pensar comigo acerca do prazer que a leitura – a boa leitura – proporciona. Não que meu texto seja bom ou prazeroso, mas se ao menos eu consigo provocar a você com as minhas divagações, já me dou por satisfeito.

Mas, o que seria uma boa e prazerosa leitura? Na minha opinião seria aquela que é capaz de me transportar para cenários que desconheço à maneira descrita pelo escritor. Não me refiro àquelas leituras que estimulam o exercício da minha imaginação. Isso é fácil de acontecer a partir da leitura de qualquer romance ou ficção dentre estas obras mais vendidas de hoje.

Refiro-me a bem mais que isso. Penso na obra que consegue me mostrar o quanto eu era um ignorante naquele tema e mesmo assim tinha a ilusão de que sabia muito. Os livros de hoje, em particular os que fazem sucesso, são em sua maioria direcionados a leitores e leitoras que não gostam nem um pouco de ler, e que passaram de repente a se achar bons leitores porque se entusiasmaram com determinadas obras que, finalmente, conseguiram ler até o final. Antes fosse um Aristóteles, um Dante, um Dostoiévski, um Machado de Assis ou um Fernando Pessoa. Nada disso!

A prova de que a maioria dos brasileiros e das brasileiras não gosta de ler está evidente nas falências de famosas redes de livrarias. Nem os tais bons leitores vão salvar essas lojas do fracasso. E o que é pior, não lamentam que as suas portas se fecharão. Quem realmente não consegue aceitar este fracasso do chamado “mercado literário” são os poucos que sempre amaram ler, e não a qualquer coisa.

Quem ama ler é minoria e lê o que de maneira efetiva não sustenta uma livraria. Quem ama ler não gasta seu dinheiro com qualquer livro, mas é seletivo, tem critérios, tem rigor, seja a filosofia, as ciências humanas, a poesia ou a literatura, sua grande paixão literária.

O fechamento das grandes livrarias causa dor em quem lê um Gabriel Garcia Marquez e não no leitor dos chamados “mais vendidos”. Aliás, é raro vermos no Brasil coisa boa na prateleira dos “mais vendidos”. Acontece, mas é raro!

E assim, essas livrarias vão dar lugar a mais bares. Nada contra bares; eu gosto de bares. Mas, não se dedica à leitura o mesmo prazer dedicado à cervejada. Isso para não falar da quantidade incalculável de lojas, mercados e estabelecimentos que estimulam o cada vez mais consolidado consumismo daquilo que não tem a mínima indispensabilidade.

O livro pode ficar para depois… Se ficar!

O reflexo deste desprezo à leitura, cujo prazer não desperta nenhum interesse na maioria, é visto no resultado das eleições, por exemplo. Tenho dito que nosso País vive hoje o triunfo da mediocridade. Um povo que se considera minimamente informado e crítico com bases em memes, vídeos e textos repassados pelo Whatsapp ou compartilhados pelo Facebook, explicita o quanto ele (o povo) lê bons livros.

Já disse Darcy Ribeiro que aqui no Brasil, a crise da Educação não é uma crise, mas um projeto. Arrisco dizer que o total desprezo à leitura de qualidade, o sucesso permanente dos programas mais inúteis da TV, a eleição daquilo que há de pior e mais demagogo na nossa política e o consumismo exacerbado que entorpece de vez aos brasileiros, estão entre as causas de tamanha mediocridade.

Menos livrarias e mais shoppings! Esta é a lógica sedutora imposta nas mentes desse povo que nunca foi incentivado à leitura. Se não faltar aquela boa cervejinha no final de semana, livros podem esperar ou até faltar. Estamos a poucos dias de março. Quantos livros você terá lido ao final deste ano?

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