Não há limites nas relações entre Religião e Política!

por Jefferson Ramalho

Foi embora o tempo no qual eu era radicalmente contra a união de forças entre lideranças religiosas e lideranças políticas. É preciso entender que tanto a Religião como a Política são instituições consolidadas na sociedade, apesar de todos os problemas que as caracterizam, desde escândalos relacionados a dinheiro até aqueles que dizem respeito ao comportamento ético e/ou moral de seus líderes. De todo modo, se há uma sociedade que precisa de assistência, nada mais sensato que organizações sérias ligadas às esferas políticas, religiosas, dentre outras de diferentes naturezas, se unam para atender às carências diversas que tanto atingem as pessoas mais vulneráveis, mais necessitadas e mais excluídas de nossa população… E não são poucas!

Há, porém, um problema muito sério quando falamos nessa união entre instituições religiosas e representações político-partidárias. Tal complexidade tem a ver com os interesses que se mostram já não mais de maneira escusa, mas evidente, declarada. Estou pensando, por exemplo, não em parcerias entre instituições religiosas e partidos políticos que visam o efetivo bem social e econômico da população, mas em alianças que, no fim das contas, estão apenas interessadas em promover o status dos líderes – políticos e religiosos – ao ponto de torná-los ocupantes dos mais importantes cargos públicos, tais como Secretarias e Ministérios, como também o enriquecimento de seus patrimônios pessoais. Todos sabem que ser político no Brasil ou mesmo exercer um cargo público de confiança pode representar uma boa ascensão financeira.

Quem nunca ficou sabendo de um pastor que, após ter dedicado meses de discursos e pregações em sua igreja, utilizando os mecanismos da persuasão e da retórica moralista, conseguiu convencer seu rebanho de que para defender os interesses e até mesmo a identidade de sua fé, seria interessante que todos votassem neste candidato e não naquele? Mais do que isso, quem nunca soube que, depois deste esforço, chegando por vezes a transformar suas igrejas em comitês eleitorais e os altares de seus templos em palanques de campanha, não chegaram, após eleitos seus candidatos, a serem convidados para ocuparem as mais cobiçadas cadeiras de Secretarias de Governo?

O povo é uma presa fácil, e tanto líderes religiosos como líderes políticos já perceberam isso há décadas. Basta dizer ao rebanho que é preciso eleger um político que defenda os interesses da chamada família tradicional, que convirja com os princípios morais dos tempos bíblicos no que tange à sexualidade, por exemplo, que não favoreça e nem dê visibilidade às tradições religiosas de matriz africana, dentre outras coisas, que será suficiente para se construir no imaginário dos fiéis a certeza de que o candidato que a igreja está apoiando é a melhor opção para a cidade, para o Estado e até para o País.

Além disso, há outro recurso bastante eficaz: dizer para o povo não votar em esquerdista. Parece até que as pessoas continuam acreditando na lenda que dizia que todo esquerdista mata e come criancinha. Para eles, esquerdista odeia a Bíblia, odeia Jesus e está comprometido com causas que, para os mais conservadores, são verdadeiras aberrações: inclusão social plena às pessoas homoafetivas, combate às desigualdades econômica e social, tratar temas como aborto e drogas como sendo de saúde pública e não de ordens moral, ética e até policial. Esses tabus, para cristãos mais conservadores, para não dizer fundamentalistas, são inegociáveis. Nada, portanto, como apresentar um candidato aliado a esses princípios como sendo a melhor alternativa para a igreja.

O problema é que, na realidade, em termos práticos, só o povo se preocupa com essas questões. Já os líderes políticos e religiosos, uma vez aliados para conquistarem os votos desses rebanhos compostos por pessoas pouco informadas e fáceis de serem convencidas, querem mais que tudo alcançar a outros objetivos. Eles pouco se importam com aqueles princípios morais retrógrados e incompatíveis com a realidade cultural de nosso tempo. Estamos no século XXI d.C. O que esses líderes querem, na verdade, nada mais é que ocupar as cadeiras mais importantes do poder público. Acabam até atendendo um ou outro item daqueles apresentados e defendidos em campanha. E o que não conseguirem, se for preciso, bastará dizer: a maioria na Câmara não aceitou o que queríamos, o Legislativo aprovou o que não queríamos,… E assim segue a vida!

O Brasil é e continuará sendo por décadas, talvez séculos, um país de coronéis. Temos coronéis na Política, temos coronéis nas elites empresariais, temos coronéis no chamado Agronegócio, mas também temos coronéis nas Igrejas. O antigo padroado não só não acabou em termos práticos, mas bem mais que isso, se ampliou. Em séculos passados era a Igreja Católica que exercia esse papel, hoje são as igrejas evangélicas que também protagonizam esse cenário de acordos, alianças, conchavos e conluios. Sabemos, por exemplo, que quem elegeu o atual presidente da República não foi o percentual bem orientado e informado da nossa população, mas foi em sua maioria a parcela evangélica, seduzida e convencida por comícios em forma de culto. Os tais coronéis são minoria, sozinhos não conseguiriam eleger um presidente; precisavam convencer seus súditos, fossem estes as ovelhas da igreja ou empregados da empresa. E ai de quem se opusesse!

Esse fenômeno não foi inédito aqui no Brasil. Antes, por inúmeras vezes, pastores já se utilizaram da mesma estratégia para eleger vereadores, prefeitos, deputados e senadores… Uma hora eles conseguiriam fazê-lo para eleger um presidente. Portanto, o que eu quis problematizar neste texto não foi a eleição deste ou daquele político, mas a ação perversa de um líder religioso que, por interesses puramente pessoais, usa sua posição frente a essas pessoas a fim de alcançar objetivos que, no fim das contas, são apenas dele. Ele não está nem aí se no Brasil haverá ou não uma Lei que permita ou mesmo determine o casamento entre pessoas do mesmo sexo, se o aborto será ou não descriminalizado (mesmo porque se a filha dele sofrer um estupro e ficar grávida, ele será o primeiro a buscar meios para que ela possa abortar), se o consumo de drogas será ou não liberado, se na escola se ensina teoria da Evolução ou da Criação (muitos desses pastores têm filhos estudando na Europa ou nos Estados Unidos, e lá com certeza eles nem se metem nas questões relativas ao currículo escolar de seus filhos),…

Enquanto isso, para sustentarem os seus confortos e privilégios, as suas ovelhas submissas à autoridade espiritual que Deus lhes conferiu seguem obedientes e fazendo conforme mandam as suas cartilhas doutrinárias que, a propósito, segundo o ponto de vista hermenêutico, quase nada têm a ver com o que de fato é importante e perene do que consta nas chamadas Escrituras Sagradas. O que resta a nós que não concordamos com tais práticas? Não nos silenciarmos, mas denunciarmos, todos os dias, para que a corrupção deles, disfarçada de moral religiosa, fique cada vez mais notável, até que o máximo de pessoas, uma a uma, perceba qual é o lado sério da História.

Jefferson Ramalho é escritor, professor, teólogo, historiador, autor do livro “Jesus, o maior socialista que já existiu”, mestre em Ciências da Religião pela PUC-SP e em 19 de dezembro de 2018 defendeu a sua tese de doutoramento em História pela Unicamp.

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