Aqui o mundo acaba em lama, água, fogo,…

por Jefferson Ramalho

Quando criança ouvia frases do tipo “o mundo já acabou em água, na próxima vez vai acabar em fogo.” Apesar dessas lendas populares, no Brasil elas são realidades. Em poucos dias em consequência de ganância, irresponsabilidade e total incompetência do Estado, que tratou de não fiscalizar como deveria, centenas de vidas foram interrompidas. Para elas a lenda não foi lenda, tornou-se real, e o mundo para cada qual acabou em água ou em fogo ou em lama.

Agora, além de chorar e lamentar, o que há de ser feito? Protestar, gritar, xingar? Na mesma semana o reeleito presidente da Câmara dos Deputados afirma que trabalhar até os 75, 80 anos de idade é normal. Uma coisa tem total relação com a outra. As bilionárias empresas que têm dívidas bilionárias com o Estado são as mesmas que de uma forma irresponsável, gananciosa e desumana matam os cidadãos comuns. Enriquecendo seus patrimônios nas casas dos milhões, bilhões, trilhões, pouco se importam com quem será levado pela lama e pela água ou consumido pelo fogo.

A Reforma da Previdência não é apenas uma continuidade das desgraças que a Direita no Brasil tem imposto sobre os seus filhos mais frágeis, desde a Reforma Trabalhista que fora aprovada pelo golpista Michel Temer. Ainda pior, a Reforma da Previdência fará com que este país não tenha somente novos escravos da elite que nunca abre mão de seu conforto, mas também idosos com 70, 75, 80 anos de idade morrendo sem parar de trabalhar, sem desfrutar da alegria de curtir a velhice com os netos e bisnetos, sem saber o que é dizer “eu trabalhei a vida inteira e agora, graças a Deus, posso descansar com minha família.”

Enquanto isso, as dívidas bilionárias que esse grupo composto por banqueiros e fazendeiros, empresários e tantos senhores do capital que sempre fizeram o que bem quiseram neste país é simplesmente ignorada e perdoada. O Brasil dos senhores de engenho e dos barões do café continua o mesmo. Os trabalhadores é que vão pagar a dívida que nunca foi deles.

O mais triste e revoltante é ver entre a mesma classe trabalhadora homens e mulheres que parecem estar anestesiados, pois se mostram incapazes de enxergar a própria condição de vítimas neste processo, e pior, fazem eco à voz e aos interesses de seus exploradores. São pessoas conformadas com o pouco que têm, como se tivessem muito, e estão alienadas no sentido estrito do termo, pois não são agentes da própria história, uma vez que preferem ser passivas e passivos diante do sofrimento.

Aceitam até a violência do chicote já que foram convencidas de que apanhar será melhor para elas. São os escravos conformados do século XXI, que até sorriem enquanto são mantidos no tronco. Tudo o que querem é poder estar à frente da televisão tomando um café todas as tardes enquanto assistem desgraças alheias sendo exibidas no programa do Datena.

Qual será a próxima tragédia? Qual lenda nesta semana vai deixar de ser lenda? Qual vai ser a próxima desgraça? (não fale desgraça, é feio!) Não é não; feio é o que os senhores do capital de hoje e do passado sempre fizeram com os mais fracos econômica e socialmente.

A lama, a água, o fogo…o que mais falta matar a nossa gente? Seja o que for, há uma essência mesma que se faz real e presente em cada um desses elementos. Em pouquíssimas palavras chama-se “acúmulo de capital”. Basta!

Basta? Escrevi este texto no domingo à noite. Mas, na segunda morreria o jornalista Ricardo Boechat, o que me levaria a acrescentar este último parágrafo. Quanta desgraça! A pergunta parece ser: qual será a próxima tragédia? O fato é que estas tão tristes ocorrências são reais, concretas e, ao mesmo tempo, simbólicas. Simbolizam o que será o Brasil desta tal “nova era” que tem à frente do seu governo um sujeito sem a menor competência para representar um povo que ao longo da história sofre pelo simples fato de ser brasileiro. O povo brasileiro, diria Darcy Ribeiro!

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