Como será, na prática, o ensino domiciliar

por Jefferson Ramalho

A proposta de transferir a responsabilidade da educação escolar de nossas crianças para os pais ou responsáveis, no âmbito familiar, é de uma irresponsabilidade sem tamanho.

Toda criança necessita da experiência escolar, e o quanto antes, pensando em tempos atuais. A memória, a escrita, a convivência, o exercício da coordenação e da articulação, o aprender a ouvir “não”, a alimentação, a prática esportiva, a sociabilidade, a cidadania, o convívio com a diversidade, dentre tantas outras coisas, só se fazem possíveis e de forma eficiente por meio da mediação de profissionais que foram muito bem preparados e que são qualificados para o exercício de suas funções. Isso sem falarmos, é claro, do conhecimento específico nas mais diversas áreas do saber.

Ensinar uma criança a escrever, a desenhar, a descobrir suas habilidades e a desenvolver as suas competências dependerá de domínios pedagógicos que nem todo pai tem. Decerto haverá aqueles que vão contratar preceptores para seus filhos, uma espécie de professor ou tutor particular. Aquilo que Aristóteles foi para Alexandre Magno e que Sêneca foi para Nero.

No entanto, nem toda família poderá pagar um preceptor. Logo, mais uma vez se estabelecerá a desigualdade. Em nome do conservadorismo ultrapassado dos evangélicos, veremos nossas escolas descartadas de vez pelo ralo e a nossa Educação voltando a ser, infelizmente, aquela instituição excludente e elitista, e não inclusiva, conforme vinha passando a ser nos anos mais recentes, e como deveria ter sido sempre.

Que tal domiciliarnos os tratamentos médicos, por exemplo, dentre outras tantas atividades? Ora, se qualquer um poderá ser um professor, desde a alfabetização, mesmo não tendo se preparado para isso, qual o problema em ser pediatra do próprio filho, não é verdade?

Por que insistem em desmerecer, ridicularizar e desrespeitar tanto o ofício docente? A tolice de que nas escolas temos apenas doutrinadores de Esquerda é uma das maiores imbecilidades que já ouvi nos últimos tempos. E, o que é pior, afirmam que não querem a tal doutrinação das crianças; mas, o que estão querendo a não ser doutriná-las quando impõem seus conceitos e padrões morais e religiosos universalizantes?

Sou professor há dezessete anos. E apesar das minhas convicções marxistas e socialistas, eu jamais usei as salas de aula pelas quais passei para convencer meus estudantes de que minha opinião sobre política, economia e sociedade é a única válida e verdadeira. Ao contrário, o que sempre procurei fazer foi despertar o potencial crítico e reflexivo que qualquer estudante pode ter. Enquanto professor de Humanas, estas são minha função e missão, e sempre as busquei.

A questão para eles, portanto, não está na tal doutrinação, mas em qual doutrinação. Se for aquela que ensina crianças a serem presas ao dinheiro e às coisas que ele pode proporcionar, consumistas, ambiciosas, competidoras, sem autonomia enquanto pessoas humanas, desde que aos domingos finjam que louvam a Deus e que o têm como seu Senhor, estará tudo certo.

O lema deles é: “escola ensina, pais educam.” E com o ensino domiciliar, como seria? Os pais é que ensinam e educam; e quanto aos não mais úteis professores, que busquem outra atividade para fazer da vida. A era das trevas começou!

Estou bastante pessimista em relação ao que poderá se tornar nossa Educação. Em alguns casos, quem sabe, uma espécie de extensão das incontáveis igrejas evangélicas que há a cada esquina deste país, e grande parte delas liderada por pastores sem o mínimo preparo crítico-teológico, sequer psicológico, para que desenvolvam suas funções com competência. Antes, a única coisa que sabem fazer é incutir e perpetuar nas mentes das pessoas princípios morais retrógrados, ultrapassados, machistas, excludentes e, por vezes, preconceituosos. Já esse modelo de doutrinação não os incomoda e apenas isso é o que a maioria dos pais saberá transmitir às crianças.

O governo Bolsonaro, por meio de seu ministro da Educação e de sua ministra da Família, está disposto a assassinar a Educação brasileira. E o que é pior: acredita, de maneira irredutível, que está fazendo o melhor. Veremos as consequências!

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