Nada acima de ninguém: nossas escolas não são centros de adestramento

por Jefferson Ramalho

É de causar indignação a proposta desse atual MEC para que se reze o slogan de campanha eleitoral deste que sem dúvida já é um dos presidentes mais medíocres da nossa história. Seu Ministro da Educação, um intelectual de gueto, como todos os demais ministros, chega a afirmar que estudantes venham a proferir um nacionalismo retrógrado e a soberania de um Deus que, como sabemos, não é tido como um Deus para todos: há ateus, agnósticos, adeptos de cultos politeístas etc.

Essa ideia explicita o desrespeito à laicidade e à diversidade. O Ministro, ao propor tal prática, demonstra total desconhecimento, ignorância, superficialidade, além de incapacidade para se colocar à frente de uma causa tão importante como a Educação.

Trata-se, portanto, de um sujeito despreparado. Reduzir os sinais de qualidade da Educação à prática de se cantar o Hino Nacional por si só já é grotesco, ainda que suportável. Ninguém é melhor ou pior porque sabe cantar um hino. Se isso fosse bom sinal de alguma coisa, aquele nacionalismo crônico e desequilibrado que se tornou um dos mais brutais regimes genocidas da história – o nazismo – não teria fracassado. E que bom que fracassou!

Junto a esse desequilíbrio está o sonho louco de se militarizar escolas. Os jovens, para eles, devem: ser adestrados e não educados, usar uma ridícula farda, bater continência e, o que é pior, agirem como robôs que não têm liberdade para construir suas próprias identidades.

Homens como Friedrich Nietzsche, Jan Paul Sartre e Michel Foucault são pesados demais para eles. Mulheres como Simone de Beauvoir, Hannah Arendt e Karen Armstrong também são incompatíveis e complexas demais para as mentes engessadas, congeladas, cheias de fundamentos intocáveis e incapazes de refletir além de suas paredes dogmáticas.

Quando ouço ou leio esta frase: “Deus acima de todos”; confesso, sinto vergonha. Imagine um Deus, seja ele e/ou ela quem for, que se sente representado por todo este narcisismo político e da mais baixa categoria ética que possa existir, haja vistas ao que querem fazer com os mais pobres por meio da chamada Reforma da Previdência: promover de uma vez a desgraça no país como se não houvessem outros caminhos.

É por isso que, mesmo sendo professor há dezessete anos, me sinto envergonhado ao saber que aqui no Brasil, como chefe máximo da Educação está um sujeito tão desprovido das competências mínimas para exercer uma responsabilidade tão importante, sobretudo por sermos uma nação tão bem caracterizada pelas diversidades, inclusive a religiosa.

Não tenho competência nem intenção de dizer como Deus é ou deixa de ser. Porém, de acordo com o pouquinho que aprendi, Deus que é Deus não precisa se afirmar ou ser afirmado como o que está acima, mas como aquele que anda ao lado dos que se declararam serem seu povo.

Escolas, sobretudo as públicas, não são, não podem ser e jamais serão extensão da igreja, tampouco centros de formatação de mentes de indivíduos que ali estão para que as suas condições de cidadãos sejam aperfeiçoadas, seus pensamentos sejam provocados à exercerem a crítica reflexiva e suas inteligências individuais aguçadas.

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