Sobre o exílio de Jean Wyllys

Sobre o exílio de Jean Wyllys

por Jefferson Ramalho

Causa-me vergonha saber que as ameaças de gente identificada, no mínimo ideologicamente, com o atual presidente da república foram e são suficientes para causar o medo, o terror e a renúncia de um deputado sério, ético e lutador por causas tão verdadeiramente humanas.

O exílio que Wyllys aplica a si próprio, marca talvez e de vez o início de uma era de trevas que até então apenas se anunciava. Não por coincidência, o referido presidente retorna de sua vergonhosa performance em Davos e, mais que isso, uma decisão judicial voltou atrás e passou a permitir, às vésperas do retorno às aulas, a censura e a mordaça de professores, dando carta branca àquela deputada eleita por Santa Catarina que diz ser a favor de uma escola sem partido, mas que entra em sala de aula com a cara de Bolsonaro estampada na camiseta.

Isso tem nome!! Isso é chamado, sem meias palavras, de hipocrisia sem disfarce e sem vergonha.

Não bastaram os anos de repressão, censura, torturas, exílios e assassinatos às escuras nos porões do DOPS para que o Brasil aprendesse com sua própria história. Costumo dizer que quem defende isso não só sobra na ignorância, mas também carece de desequilíbrio e caráter.

Por que Jean Wyllys e sua homossexualidade incomoda tanto? Só porque aqueles que são adestrados a se incomodar não estudaram o suficiente História, Antropologia, Sociologia? Não só por isso! Mas, porque foram educados na escola do conservadorismo mais atrasado, congelado e engessado que pode existir.

Por que chamo a isso de desequilíbrio? Porque essa gente não só carece de conhecimento, de sensibilidade, de consciência e de caráter? Não é só isso. Além de ignorantes e más, estas são pessoas sem o menor equilíbrio emocional. O que elas apontam como sendo uma deficiência na sexualidade alheia é, na realidade, problema mal resolvido que elas têm com a sexualidade de si mesmas. Todo homofóbico é um gay em potencial, por isso repudia tanto a condição do outro.

E o que resta a essa gente? Ameaçar, censurar, silenciar, agredir, violentar, incentivar a morte e o massacre, ressignificando tais práticas de tal modo a torná-las recursos de justiça e ordem. O problema para gente assim, na essência, não é ser violento, mas em nome do que se matará.

A saída de Jean Wyllys do país, bem como sua renúncia por medo de ser assassinado mostra qual é a cara desse Brasil hipócrita, ignorante, atrasado e sem o amor de Deus no coração de evangélicos mais conservadores, desde os que se dizem reformados, calvinistas, até os mais e sempre manipulados neopentecostais. Cito os evangélicos mais conservadores e moralistas, porque são eles que compõem maior parte do eleitorado desses que hoje ocupam o poder.

Sim, eu digo com convicção que eles não têm o amor de Deus no coração. Amparo-me, aliás, nas palavras de Jesus de Nazaré que, ao se deparar com a demagogia e a hipocrisia dos mais religiosos, afirmara de forma impetuosa: “este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim.” (Mt 15.8).

É uma pena que, em pleno século XXI, a gente tenha de assistir e de presenciar o retorno da estupidez e o triunfo dos mais ignorantes, dos intolerantes, dos gananciosos, dos egoístas, dos preconceituosos. Eu sinto uma vergonha imensa de quem é conivente com toda essa bagunça. E, francamente, reconheço que por precaução e por coerência, preciso repensar boa parte do que até hoje chamei de amigos.

Que Deus nos livre e nos proteja do pior que está por vir! Não sou pessimista, sou realista. Com o que aí está, nosso país entrará em sua pior crise ética da história, em seu momento mais tenebroso em termos de desemprego e de desvalorização do trabalhador, em sua pior época no que tange à exclusão e violência ao ser humano erroneamente julgado como fora do padrão e em sua mais desastrosa postura perante o cenário internacional, haja vista às peripécias do presidente e dos seus ministros supostamente técnicos.

Jean Wyllys tem lá as suas muitas razões.

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