Sobre minha incapacidade de não me indignar

por Jefferson Ramalho

“Não é o poder, a vitória, o lapidar cartesiano das ideologias que movem meus passos. É o escândalo da miséria, a vergonha da pobreza, o sofrimento de meus semelhantes, a razão dessa invencível teimosia em juntar cacos, costurar retalhos, começar de novo, refazer o caminho, ainda que a roda do moinho deixe a impressão de que nada sai do lugar, tudo gira em torno de um mesmo ponto, nessa cíclica labuta sobrecarregada de esperanças abortivas.” (Frei Betto – A mosca azul: reflexão sobre o poder – pp. 122 e 123)

Não escrevo para ostentar estética literária, mas para expressar sentimentos. Aliás, penso que meus próprios textos são bem desprovidos de qualquer estética. Nunca vou escrever de maneira tão bela e poética como aqueles que amo ler. Frei Betto, Rubem Alves e Leonardo Boff compõem a santíssima trindade que me fez olhar e compreender a vida, a fé, a espiritualidade, a política, o amor, a humanidade, a ética e tantas outras categorias, subjetivas e objetivas, de maneiras bem diferentes àquela que eu as olhava.

Nasci de novo! E dentre as tantas coisas que me fizeram repensar – e devo isso não só a eles, mas também aos professores que a eles me apresentaram – gostaria de destacar uma: a humanidade. Sinto muito se decepciono a quem esperava mais de mim.

Não sou e não quero ser rico porque não sou ambicioso. Ser rico em um mundo com miseráveis, ser rico em um mundo com milhões de pessoas que passam fome e ser rico em um mundo tão desigual em oportunidades é, no mínimo, fazer parte de um esquema desumano. Receber um bom salário é uma coisa. O problema, para mim, está em não se sensibilizar com a condição daquele que trabalha e não é devidamente recompensado, enquanto seu patrão engorda o patrimônio fazendo bem menos do que seu empregado.

Pior: o sujeito chega a afirmar que esta é uma consequência justa, pois ele investiu muito para chegar onde está. Mas, pergunto: e o empregado que trabalha para ele? Não investiu? Não estudou? Não dedicou e ainda dedica tempo de sua vida para receber no final do mês o que às vezes em um ou dois dias de trabalho ele conquista para a empresa? Que sistema que deu certo é este? Ainda é muito comparado ao que vão tirar.

A partir de agora, quem quiser trabalhar terá de ser PJ, Pessoa Jurídica, pelo mesmo salário, sem direito a férias, e que se vire para construir sua aposentaria. Chamam isso de modernização! Será que o patrão aceitaria viver por tão pouco? O que eles pensam que são quando submetem a outros a essas condições? Eles não pensam! Eles não sentem! Não são humanos! São desumanos! São a expressão da arrogância e da síndrome de superioridade social. Se sentem superiores, para não dizer proprietários, de seus empregados. Ocupam o trono do Capital e querem que todos que não compõem sua classe se curvem diante deles e beijem suas mãos e seus pés.

Todas as vezes que a humanidade construiu e reinventou essas relações de poder, onde há os sujeitos a se sujeitarem a ordens estabelecidas, ela revelou a arrogância, o egoísmo, a prepotência e a ganância que estão impregnados em sua natureza. Piores são aqueles que vivem à custa do bem conquistado por outros e, ainda assim, defendem a meritocracia. Como é fácil ser meritocrata quando a mesada faz parte da vida, o dinheiro brota em um passe de mágica e a obrigação de se estudar – e estudar bem – é um detalhe que não precisa ser necessariamente respeitado!

Graças a Deus não sei ver essas coisas como normais! Assim como não sei ver como normal a miséria, o passar fome, o morrer de frio, a doença não atendida, a educação negada, a informação omitida, a censura, o medo da crítica, a cristalização de ideias e opiniões, a padronização de gentes e de mentes, a militarização e a domesticação do ser humano, a doutrinação que se diz contra uma doutrinação que na verdade não existe, a ideologia que se diz contra ideologias só para se impor como única ideologia válida.

Nenhum ser humano é mais ser humano do que eu, tampouco eu sou mais ser humano do que outro ser humano. Portanto, não espere de mim submissão em troca de pão, de dinheiro, de roupas, de conforto, de carros, de viagens, do que quer que seja. Eu não estou à venda! Se quiser competência, pontualidade, responsabilidade, profissionalismo, dedicação, empenho, compromisso, conte comigo. Para além disso, em especial aquilo que se proponha a tirar de mim a dignidade humana, a liberdade de pensamento e de expressão, a minha identidade e os meus direitos básicos e mínimos de cidadão, de ser humano, de pessoa igual a qualquer outra, prefiro, honestamente, a clandestinidade.

Como parece fácil falar de cima para baixo, não é mesmo? Ter a sensação de que alguém implora pelo seu sim para trabalhar um mês inteiro e aceitar receber por isso o que pode não representar 1% do que você lucra. Por isso fico a pensar: os empresários que têm caráter admirável são exceção, porque a estrutura da relação patrão-empregado demonstra de maneira irrefutável que para ser empresário é preciso não ter caráter ou, ao menos, não ter sensibilidade. Poucos são os que têm um caráter generoso! Sim, eles existem, mas não são e não querem ser notados. Não sofrem da síndrome de lúcifer.

Para encerrar, menciono a história de meu pai. Um homem que trabalhou desde criança como lavrador, até se tornar metalúrgico aos vinte anos, aposentando-se aos quarenta e cinco. No chão da fábrica, em atividade altamente insalubre, ele perdeu a audição de um ouvido, teve por vezes a saúde prejudicada, e ao se aposentar não recebeu todos os seus direitos, o que só ocorreria vinte anos depois, após anos de luta na Justiça e inúmeras reuniões no Sindicato. Como ele, centenas de ex-operários – alguns morreram, pois seus filhos e, em alguns casos, netos é que receberiam os tais direitos – lutaram para receber pelo que trabalharam. Em contrapartida, o ex-proprietário da empresa, bilionário, jamais deixou de desfrutar da vida privilegiada e confortável em sua mansão no Morumbi, regada a bons vinhos, whisky e charutos. A referida indenização só seria paga, em parcelas, graças à venda de parte do imóvel onde funcionara a fábrica em que meu pai trabalhara por vinte e cinco anos.

Lamento informar, mas o filho de um homem que viveu essa experiência não se tornaria adepto de uma mentalidade econômico-social capitalista, neoliberal e meritocrata. Se hoje defendo interesses dos que são explorados é porque sei bem de onde vim e jamais envergonharia a história e a identidade de cidadão de quem me gerou e me educou.

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