Jesus e Satã na avenida? Não! Apenas representações.

por Jefferson Ramalho

Quem se incomodou com a representação que a escola de samba Gaviões da Fiel fez de Satã açoitando e vencendo a Jesus, certamente foi quem pouco entendeu até hoje das narrativas bíblicas, mesmo tendo lido a Bíblia a vida toda.

Quem se incomodou com tal representação da referida cena desconsidera, ou não sabe, que o Jesus do Novo Testamento, antes de qualquer coisa, é uma personagem construída, um mito, uma personagem literária metafórica como as tantas outras, mesmo que ele tenha existido.

Quem se incomodou com aquela cena decerto não sabe que até o tal Satã, enquanto figura, é também uma construção, neste caso, durante a Idade Média. Isso porque, satanás, demônio, diabo, dentre outros, são conceitos, não seres. Acreditar nestes conceitos como sendo seres é paranóia. Quase nada é literal na Bíblia.

Quem se incomodou não entendeu que a cena representava a tortura e a violência praticadas por aqueles que se fazem satanazes (acusadores) uns dos outros. Assim são as elites de épocas passadas e até presentes: acusam, condenam, torturam e matam, sem piedade.

Aliás, para estes, quando cristãos de correntes mais conservadoras, o que deve ser literal nas narrativas da Bíblia acaba sendo tratado como metáfora: o amor, o perdão, a solidariedade, os atos de compaixão e de serviço ao próximo, de compartilhar o que se tem com quem não tem.

O problema, contudo, é que estes cristãos mais conservadores e moralistas, dentre católicos e protestantes, preferem acreditar em metáforas como se fossem coisas concretas, reais, e em coisas concretas como se fossem metáforas.

O Satã que açoita e derrota Jesus representa a massa que fez o mesmo, e ainda faz ao acusar um inocente (Jesus representa o inocente que é vítima de uma condenação injusta, de tortura física e/ou moral e/ou psicológica), o expondo à vergonha pública e à calúnia da pior espécie.

Os evangélicos e cristãos conservadores em geral precisam parar com esse fanatismo por vezes carregado de ignorância teológica. Ver blasfêmia em tudo só demonstra o cúmulo da falta de entendimento acerca da própria fé e das próprias tradições.

Jesus, Satã e Bíblia, além de outras categorias não são patrimônios dos/as adeptos/as dessa ou daquela igreja. Antes, eles já são conceitos estudados, interpretados, e que com o tempo ganham novas significações por acadêmicos ou artistas das mais diferenciadas matrizes, inclusive a carnavalesca.

São manifestações fanáticas e tão superficiais como as desses religiosos o motivo de eu não ter mais a menor vontade de voltar a pisar em uma igreja para um culto ou uma missa. Esses demais olhares aí estão, têm os seus espaços e merecem todo o nosso respeito e toda nossa consideração enquanto arte.

Nem toda leitura é dicotômica, mas ainda que seja, as percepções nem sempre serão iguais ou convergentes. Os carnavalescos e artistas não têm culpa se milhões de cristãos e cristãs não foram ensinados a ler e a interpretar com coerência crítica o seu próprio Livro Sagrado.

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